Seeing is believing… or not

ver para crer

A tradução de seeing is believing é bastante comum, ver para crer.

Só que o artigo de hoje não é sobre tradução de expressões idiomáticas, mas sobre como algumas expressões perdem o sentido original.

É muito comum ver a frase: “Só acredito quando vir com meus próprios olhos”. Alguns até acrescentam “que a terra há de comer” para dar ênfase.

Sempre soube que essa expressão veio do Novo Testamento, em que Tomé só acreditou que Jesus tinha ressuscitado depois de ver suas chagas. Se você acredita ou não, é outra história.

Temos até a expressão “fazer o teste de São Tomé”. Se você nasceu no século passado, deve lembrar da propaganda do OMO em que as donas de casa faziam o teste de São Tomé para comprovar como o sabão em pó tirava as manchas do tecido.

O que me inspirou a escrever o artigo de hoje foi o vídeo abaixo em que um dragão em realidade aumentada sobrevoa o estádio na abertura do Campeonato de Beisebol na Coreia do Sul.

A tecnologia de realidade aumentada, ou augmented reality (AR), vai acabar com o sentido da expressão ver para crer. Vai ser preciso trocar o sentido de visão para tato, “pegar para crer”, para comprovar que você pode acreditar por que aquilo é real, de verdade, você pegou com suas próprias mãos.

Até que surja alguma outra tecnologia que a leve para o reino das expressões que não fazem mais sentido.

Um jovem de hoje em dia, que nunca viu um telefone de disco ou um orelhão, não entende porque a avó insiste em mandar discar o número da farmácia para pedir um remédio. Ou porque a tia disse que agora caiu a ficha quando finalmente entendeu porque não deve compartilhar todos os vídeos que recebe com todos os seus grupos do Whatsapp.

Da mesma forma, o jovem dos anos 2030 não verá o menor sentido na expressão ver para crer. E talvez nem saiba o que é Whatsapp.

Só o tempo dirá ou, como se diz em inglês, only time will tell.

Não é uma maravilha quando não temos que quebrar a cabeça para encontrar uma expressão equivalente porque a tradução literal serve perfeitamente?

Não deixe de assistir ao vídeo. É sensacional! Imagine como seria se você estivesse lá no estádio.

O Hotel Chinês (porque contratar um tradutor profissional)

Hotel Chinês

A internet está cheia de exemplos de traduções mal feitas. Tenho certeza que você já deve ter visto algumas porque, quanto pior é, mais compartilhado será. Os erros mais absurdos aparecem em cardápios.

Duvido que você nunca tenha visto o famoso against the stake (contra-filé) ou kill (mate). No outro dia vi uma que ainda não conhecia: stocking lasanha (meia lasanha). Porque, afinal, stocking (meia-calça) é muito mais elegante do que uma simples sock (meia).

Aí você pensa, porque não contrataram um tradutor profissional em vez de passar por esse ridículo? Será que é tão caro assim?

Boa pergunta. Quanto vale uma tradução profissional?

Note que não perguntei “Quanto custa uma tradução profissional”. O custo varia, dependendo dos idiomas, da complexidade e de vários outros fatores.

Mas quanto vale uma tradução profissional? Isso só quem pode responder é quem contrata.

Se uma tradução incorreta, absurda ou ridícula pode afetar a imagem do negócio, ela deveria valer muito, o suficiente para separar uma verba e contratar um tradutor profissional em vez de se fiar na tradução automática ou em alguém que não trabalha com isso.

Quando se traduz um site, uma peça de marketing, um vídeo, a intenção é atrair um público que não entende o idioma original. Mas se a tradução é mal feita, o tiro pode sair pela culatra. Se você não dá o devido valor à comunicação com esse público para oferecer uma boa tradução, por que iriam se interessar pelo seu negócio?

Ainda que a tradução automática tenha melhorado muito, ela ainda não é capaz de substituir o tradutor profissional, principalmente quando se trata de expressões idiomáticas e nuances do contexto.

Para ilustrar o meu ponto, resolvi fazer o exercício a seguir.

Esse texto do folheto do Hotel Chinês em inglês já circula há vários anos pela internet. Não sei qual é a sua origem, mas considerando as várias expressões com conotação sexual, a intenção deve ter sido fazer uma piada com as traduções absurdas que a gente encontra por aí.

Traduzi o texto do inglês para o português usando apenas o Google Tradutor. Ele não “entendeu” praticamente nenhuma das conotações, tirando toda a graça do original, o que também serve para demonstrar como uma tradução automática pode acabar com a espirituosidade do texto.

Novamente, o texto original força a barra usando expressões que podem ter duplo sentido. Mas muitos textos também têm expressões idiomáticas e verbos frasais que quando traduzidos ao pé da letra acabam com o sentido original.

A friend went to Beijing recently and was given this brochure by the hotel. It is precious.
She is keeping it and reading it whenever she feels depressed.
Obviously, it has been translated directly, word for word from Mandarin to English.
Um amigo foi para Beijing recentemente e foi dado este folheto pelo hotel. É precioso.
Ela está mantendo e lendo sempre que se sente deprimida.
Obviamente, foi traduzido diretamente, palavra por palavra, do mandarim para o inglês.

É interessante notar que ele traduziu “Um amigo foi para Beijing” mas “Ela está mantendo e lendo sempre que se sente deprimida”.
O preconceito de gênero já diminuiu muito na tradução automática, mas ainda não foi totalmente eliminado.

Getting There:

Our representative will make you wait at the airport. The bus to the hotel runs along the lake shore. Soon you will feel pleasure in passing water. You will know that you are getting near the hotel, because you will go round the bend. The manager will await you in the entrance hall. He always tries to have intercourse with all new guests.

Ao chegar:

Nosso representante fará você esperar no aeroporto. O ônibus para o hotel corre ao longo da margem do lago. Logo você sentirá prazer em passar água. Você saberá que está chegando perto do hotel, porque vai dar a volta. O gerente vai aguardar você no saguão de entrada. Ele sempre tenta ter relações sexuais com todos os novos convidados.

passing water significa urinar.

go round the bend significa enlouquecer.

O texto original em inglês usou as duas expressões de propósito no lugar de passing by the water e go around the bend of the lake.

A tradução automática desconsiderou as expressões idiomáticas e traduziu ao pé da letra, literalmente tirando a graça do texto.

The Hotel:

This is a family hotel, so children are very welcome. We of course are always pleased to accept adultery. Highly skilled nurses are available in the evenings to put down your children. Guests are invited to conjugate in the bar and expose themselves to others. But please note that ladies are not allowed to have babies in the bar. We organize social games, so no guest is ever left alone to play with them self.

O Hotel:

Este é um hotel familiar, por isso as crianças são muito bem-vindas. É claro que estamos sempre satisfeitos em aceitar o adultérioEnfermeiros altamente qualificados estão disponíveis à noite para acabar com seus filhos. Os hóspedes são convidados a conjugar no bar e se exporem a outros. Mas por favor note que as senhoras não estão autorizadas a ter bebês no bar. Nós organizamos jogos sociais, então nenhum convidado é deixado sozinho para brincar com eles mesmos.

put down your children – Put down tem vários significados, mas dessa forma, é usado com animais, como em sacrificar um animal de estimação.

No sentido de colocar as crianças para dormir, deveria ser put your children down. A diferença é sutil, mas faz toda a diferença, não acha? A tradução automática pegou o sentido, mas não usou a melhor tradução na minha opinião.

play with themselves (tem um erro no original) é uma expressão que significa se masturbar; no contexto deveria ser simplesmente left alone. O GT perdeu a piada.

The Restaurant:

Our menus have been carefully chosen to be ordinary and unexciting. At dinner, our quartet will circulate from table to table, and fiddle with you.

O Restaurante:

Nossos cardápios foram cuidadosamente escolhidos para serem comuns e desinteressantes. No jantar, nosso quarteto vai circular de mesa em mesa e mexer com você.

fiddle with you – Nesse caso, a tradução automática acertou. Essa expressão também tem uma conotação sexual, mas não acredito que o GT tenha feito de propósito. No original, o correto seria “play the fiddle for you”.

Your Room:

Every room has excellent facilities for your private parts. In winter, every room is on heat. Each room has a balcony offering views of outstanding obscenity! .. You will not be disturbed by traffic noise, since the road between the hotel and the lake is used only by pederasts.

Seu Quarto:

Cada quarto tem excelentes instalações para as suas partes privadas. No inverno, todos os quartos estão no calor. Cada quarto tem uma varanda com vista para a obscenidade excepcional! .. Você não será perturbado pelo ruído do tráfego, uma vez que a estrada entre o hotel e o lago é usada apenas por pederastas.

private parts – A tradução mais correta seria partes íntimas. Se o texto fosse sério, em vez de private parts, seria privacy.

on heat – A tradução de on heat é no cio, que também pode ser in heat; o GT só conhece a segunda forma e perdeu a piada.

Bed:

Your bed has been made in accordance with local tradition. If you have any other ideas please ring for the chambermaid. Please take advantage of her. She will be very pleased to squash your shirts, blouses and underwear. If asked, she will also squeeze your trousers.

Cama:

Sua cama foi feita de acordo com a tradição local. Se você tiver outras idéias, por favor, ligue para a camareira. Por favor tire vantagem dela. Ela ficará muito satisfeita em esmagar suas camisas, blusas e roupas íntimas. Se perguntado, ela também vai apertar suas calças.

Aqui há uma brincadeira com squash/wash. O dia em que a tradução automática for capaz de traduzir aliterações, assonâncias e paronomásias, nós tradutores estaremos perdidos.

take advantage of her pode ser aproveitar-se dela, novamente uma conotação sexual que o GT não pescou

Incrível como o GT ainda não aprendeu que ideias não tem mais acento.

Above All:

When you leave us at the end of your holiday, you will have no hopeYou will struggle to forget it.

Acima de tudo:

Quando você nos deixar no final das suas férias, você não terá esperançaVocê vai lutar para esquecer isso.

Struggle pode ser lutar mas também pode ser ter dificuldades. O GT escolheu a tradução errada no contexto.

O Buzzfeed colecionou algumas traduções absurdas de cardápios. Agora imagina se fosse no seu restaurante e o cliente te chamasse à mesa para explicar.

Se você quiser que o seu texto ou seu vídeo seja traduzido corretamente e transmita a mesma mensagem do original, é melhor não correr riscos e contratar um tradutor profissional.

Cloud Nine

cloud nine

Aproveitando o embalo da pesquisa sobre cloud your judgement, resolvi escrever também sobre cloud nine.

Eu escrevi que o verbo cloud é quase sempre negativo, no sentido de impedir a passagem da claridade e que só lembrava de uma expressão positiva com a palavra cloud.

To be on cloud nine é estar em um estado de euforia, nas nuvens. É a mesma coisa que estar no sétimo céu, que é igual em inglês, seventh heaven.

Nesse caso, o sentido positivo é se imaginar em uma nuvem branquinha, fofinha, livre das preocupações terrenas.

Mas de onde surgiu essa expressão?

O site The Phrase Finder tem uma explicação interessante sobre classificação de nuvens e estágios do budismo.

Contam eles que nos anos de 1950, o Serviço de Meteorologia dos EUA classificou o cumulonimbus, aquela nuvem fofinha, com o número nove. O mais estranho é que a Wikipedia me esclarece que essa formação de nuvens é prenúncio de tempestade, o que não faz o menor sentido usar com um significado positivo. Provavelmente, é por isso que essa não é a explicação correta.

A explicação relacionado ao budismo diz que seria um dos estágios do progresso que leva ao esclarecimento de um bodisatva para atingir o mesmo status de Buda. Mas também afirmam que essa explicação não se sustenta, pois são dez os estágios e não faria sentido que o nono fosse o estado de euforia que deveria ser o último. Não tenho conhecimento suficiente sobre o budismo para julgar.

Logo depois ele fala que “Early examples of ‘cloud’ expressions include clouds seven, eight, nine and even thirty-nine“.

Então, como dentre tantos números, o nove ganhou a expressão? O que ele tem de especial?

Duas músicas: a primeira, do grupo The Temptations, de 1969.

Cloud nine, you can be what you wanna be
(Cloud nine) you ain’t got no responsibility
And ev’ry man, ev’ry man is free
(Cloud nine) and you’re a million miles from reality
I wanna say I love the life I live
And I’m gonna live the life I love up here on cloud nine
I, I, I, I, I, I I’m riding high
On cloud nine, you’re as free as a bird in flight
(Cloud nine) there’s no diff’rence between day and night
(Cloud nine) it’s a world of love and harmony
(Cloud nine) you’re a million miles from reality

Mas, segundo eles, o motivo de a expressão ter se tornado mais popular foi a música Cloud Nine do George Harrison lançada em 1987. Nada como um Beatles para fazer uma expressão ganhar a fama! Se quiser acompanhar a letra, aqui está.

A internet não é uma maravilha? A gente pode começar com uma simples pesquisa, passar horas pulando de link em link e nunca mais voltar para o mundo real. Acho que deve existir uma expressão para isso, mas ainda não encontrei.

Cloud your judgement

cloud your judgement

Cloud your judgement é uma expressão bastante comum em inglês. Às vezes, aparece também como cloud your thinking.

A definição no Merriam-Webster é bem clara.
: to cause someone to be unable to think clearly
The alcohol must have clouded my judgment.

Em português dizemos: afetar seu raciocínio ou atrapalhar seu raciocínio.
No caso do exemplo acima, poderia ser: A bebida deve ter embotado meu raciocínio.

Dependendo do contexto, judgement poderia ser traduzido como bom senso, opinião, ideias, juízo ou até mesmo julgamento, apesar de que acho que parece mais um decalque.

O Reverso Context tem alguns bons exemplos e outros não tão bons assim. É sempre bom tomar cuidado, pois ele não diferencia o português do Brasil do português de Portugal. E alguns exemplos são simplesmente errados, não importa a variante.

Em um contexto mais literário, o verbo cloud pode ser traduzido como nublar, obscurecer, toldar, encobrir. Sempre com o sentido de uma nuvem que impede a passagem da claridade. O Longman tem vários bons exemplos de cloud como verbo.

Mas resolvi escrever este post porque, trocando ideias com outro tradutor, ele contou que ouviu em uma palestra o termo “claudizar” para se referir ao ato de levar arquivos e aplicações para a nuvem. Papo vai, papo vem, a princípio concordamos que não se usa cloud como verbo em inglês porque estávamos considerando somente a NUVEM. Logo em seguida, lembrei da expressão cloud your judgement (que ele não conhecia) e fui pesquisar mais a fundo.

NUVEM, aquela que ganhou fama nos últimos anos, pois foi o termo escolhido para descrever esse espaço cibernético que ninguém sabe bem onde fica, mas é para onde mandamos nossos arquivos para que fiquem mais seguros do que somente nos nossos computadores. É onde residem muitas das aplicações que usamos porque há muitas vantagens em relação a desempenho, confiabilidade, segurança etc.

Mas nada disso importa. Ou talvez sim. Vamos ver.

O inglês é um idioma onde qualquer substantivo pode se transformar em verbo e isso é uma grande dor de cabeça para nós, tradutores, porque o português tem suas regras e não permite essa flexibilidade. Quase qualquer substantivo.

A questão aqui é a palavra nuvem. O sentido da nuvem cibernética é totalmente diferente de algo que obscurece a claridade e tem uma conotação meio negativa. Que eu me lembre, só existe uma expressão em inglês usando nuvem de forma positiva, cloud nine. Aproveitando o embalo, escrevi sobre ela também.

A nuvem cibernética é algo que está “lá em cima”, não se sabe bem onde, não tem uma forma muito definida, mas é indubitavelmente positiva, por todos os motivos que descrevi acima.

Por isso mesmo, não dá para usar cloud como verbo em inglês quando queremos dizer que estamos enviando ou subindo arquivos para a nuvem, ou rodando aplicações na nuvem.

Recentemente, traduzi o vídeo da abertura da conferência da Google sobre computação em nuvem e eles usam termos como digital transformation e application modernization para ser referir à passagem das aplicações dos data centers para a nuvem. A própria empresa dona de uma das maiores plataformas de nuvem do mundo não achou que fazia sentido dar um novo significado para o verbo cloud.

Mesmo contra todas as regras da nossa língua, alguns verbos importados passam a ser usados e não causam estranhamento, como deletar. Ainda que o Houaiss recomende a substituição por apagar, suprimir, remover, o deletar caiu na boca do povo, e mesmo não sendo usado formalmente, todo mundo fala.

Mas claudizar dói no ouvido, né? Tomara que esse termo não pegue.

Road hog

A expressão road hog apareceu em um teste que fiz para uma agência de tradução. Eu não sabia exatamente o que era, mas como era um teste de múltipla escolha, pela imagem que por trás da expressão, pude inferir o significado.

A palavra hog em inglês tem vários significados.

Como substantivo, pode ser um porco criado para engorda ou uma pessoa porca, glutona ou mesquinha. Se uma das opções do teste fosse uma pessoa que joga lixo pela janela do carro e suja a estrada, eu poderia teria errado, porque esse não é o significado de road hog.

Como verbo, significa monopolizar, se apoderar, tomar tudo para si.

Aha! Você consegue visualizar a imagem por trás da expressão?

Quando chamamos alguém de road hog, queremos dizer que a pessoa é o “dono da estrada“, aquele motorista agressivo, que não dá passagem ou que “costura” pelo trânsito sem se importar com os outros.

Nem sempre é fácil saber o significado correto de uma expressão idiomática e traduzir é ainda mais difícil. Mas conhecer o significado das palavras e visualizar a imagem por trás da expressão ajuda bastante.

De acordo com o Dictionary, o primeiro uso registrado da expressão foi em 1890–95, mas não diz nem onde e nem como apareceu, mas dá para imaginar. Ela representa tão bem a imagem que acabou “pegando”, assim como dono da rua.

Mas em 1962, John D. Loudermilk compôs e gravou uma canção sobre um road hog. Você pode escutar nesse vídeo no YouTube.

Roadhog (sem espaço) também é o nome de um personagem do jogo Overwatch.

Road hog também pode se referir à motocicleta Harley Davidson ou assessórios.

Como sempre, é bom entender o contexto na hora de traduzir. Pode ser a expressão, mas também pode ser uma referência à canção, ao personagem do jogo, à moto.

Wear heart on sleeve

O que me levou a pesquisar boas traduções para expressões idiomáticas em inglês foi ver a quantidade de traduções literais que existem por aí e que não fazem o menor sentido. Mas o que me dá mais prazer hoje em dia é descobrir a origem dessas expressões, como wear your heart on the sleeve, por exemplo.

Essa é uma expressão razoavelmente comum em língua inglesa. Quer dizer demonstrar os sentimentos, o que vai no coração. Dependendo do contexto, também pode expressar vulnerabilidade, não ser de ferro.

Mas de onde apareceu essa manga (sleeve)?

Em primeiro lugar, não é a manga da camisa em que costumamos pensar. E quando pensamos em expressões com manga (de camisa), a primeira que vem à mente é “esconder as cartas na manga”, que tem o sentido exatamente oposto.

É por isso que gosto de pesquisar a origem para compreender a imagem por trás das expressões.

Segundo o site phrases.org.uk, a origem da expressão está em Otelo de William Shakespeare.

It is sure as you are Roderigo,
Were I the Moor, I would not be Iago.
In following him, I follow but myself;
Heaven is my judge, not I for love and duty,
But seeming so, for my peculiar end;
For when my outward action doth demonstrate
The native act and figure of my heart
In complement extern, ’tis not long after
But I will wear my heart upon my sleeve.
For daws to peck at. I am not what I am.
Othello, Act 1, scene 1, 56-65

Você pode pensar “mas Iago é traiçoeiro, ele nunca demonstraria seus verdadeiros sentimentos”. É verdade, mas foi dessa forma que a expressão ganhou fama.

Ok, mas e a tal da manga (sleeve)?

De acordo com o Merriam-Webster, a origem poderia estar na era medieval, aquela dos reis e cavaleiros e duelos com lanças.

Agora a imagem está se formando.

Você já deve ter visto algum filme ambientado na Idade Média que quase sempre tem uma justa, um torneio em que dois cavaleiros armados de lanças vão um na direção do outro, procurando desmontar o oponente. Segundo esse site, os cavaleiros costumavam dedicar a sua participação na justa a uma dama da corte amarrando uma fita no braço da armadura, ou seja, demonstrando seus sentimentos pela dona da fita.

Mas, ainda segundo eles, isso é mera conjectura, pois não existe nenhuma prova concreta. A primeira ocorrência registrada da expressão é realmente em Otelo, no século XVII.

Mas ainda não acabou. Neste site, tem outra explicação mais curiosa.

Contam eles que o Imperador Claudio II acreditava que homens solteiros eram melhores soldados e declarou o casamento ilegal. Mas, para fazer uma concessão, uma vez por ano, durante o festival em honra à deusa romana Juno, ele permitia ligações temporárias. Os homens sorteavam os nomes que determinavam a dama que seria seu par para o próximo ano. E a partir daí, usavam o nome da dama na manga pelo restante do festival.

Se é verdade, não sei. Não dá para acreditar em tudo que a gente lê na internet. Mas achei a história pitoresca.

Butterflies in the stomach

butterflies in the stomach

Butterflies in the stomach é um caso típico de expressão idiomática em língua estrangeira que foi traduzida literalmente para o português e adotada com entusiasmo.

Em uma pesquisa feita hoje, o Google me diz que existem 215.000 resultados para “borboletas no estômago”.

O que significa “butterflies in the stomach“?

A expressão é utilizada tanto para definir uma sensação de nervosismo (negativa) quanto de antecipação (positiva).

Em português, temos ótimas expressões para os dois casos.

Quando estamos nervosos ou apreensivos sentimos um “nó no estômago”. Em alguns casos, sentimos um “aperto no peito” ou um “aperto no coração”.

Quando estamos vibrando de antecipação, sentimos um “frio na barriga” ou, até mesmo, um “friozinho na barriga”. Quem já não sentiu?

Então, por que será que as borboletas invadiram a nossa praia?

É apenas suposição minha, mas borboletas são poéticas. É mais “bonito” dizer “borboletas no estômago” do que “nó no estômago” ou “frio na barriga”.

Também existem casos onde o autor não só usou a expressão “butterflies in the stomach” mas também resolveu continuar falando de borboletas e outros insetos. Nesse caso, é complicado substituir borboletas esvoaçando no estômago por pedras de gelo. Você consegue visualizar?

O fato é que, mesmo sendo uma tradução literal, ela é amplamente usada em português. Mas não é por isso que devemos usar sempre.

Traduzir sempre implica em fazer escolhas.
Qual o contexto?
O que funciona melhor nesse caso? Quem é o leitor?
Se eu traduzir de forma literal o leitor vai achar que ficou “com cara de tradução”?
E se for para dublagem? Sinceramente, nunca ouvi alguém falar na vida real que está com borboletas no estômago.

Depois de ter escrito butterflies tantas vezes em tão pouco tempo, me bateu uma curiosidade. O que “butter” (manteiga) tem a ver com borboleta?

Como sempre, a internet não me deixou na mão.

Encontrei este site de etimologia que dá algumas explicações para a origem da palavra. Uma das possíveis explicações vem da cor amarela de muitas borboletas, mas não é a mais interessante. De quebra, ainda conta de onde veio o conceito de “efeito borboleta”.

Belt and suspenders

belt and suspenders, belt and braces

Já escutou a expressão belt and suspenders? Eu nunca tinha escutado. Quem me deu a dica foi outra tradutora.

Mesmo que o Google me diga que existem aproximadamente 15.600 resultados para “cintos e suspensórios”, a não ser que o seu texto seja realmente sobre cintos, suspensórios e outros acessórios masculinos, não traduza “belt and suspenders” de forma literal porque não vai fazer o menor sentido.

Se você pesquisar no Reverso ou no Linguee, não vai encontrar nada de muito útil.

Então, vamos lá entender o que quer dizer essa expressão. Lembre-se que elas não nascem do nada, sempre têm uma história, uma imagem por trás.

Cintos foram feitos para segurar as calças. Suspensórios tinham a mesma função, mas só para homens (porque mulheres não usavam calças naquela época), e hoje em dia são usados mais por estilo do que para realmente segurar as calças.

Conta a Wikipedia (em inglês) que os suspensórios foram criados em 1822 e se tornaram populares porque as calças masculinas da época tinham uma cintura alta que não favorecia o uso de cintos.

Tá explicado, não se usava os dois juntos, ou se usava um cinto, ou suspensórios, não os dois juntos. Estamos chegando lá.

Quando pesquisei por “belts and suspenders“, o primeiríssimo resultado da lista foi o Wiktionary que explica:

Redundant systems, affording mutual backup in the event of one failing.

Sistemas redundantes! Faz todo o sentido! Se algum dos dois falhar, o outro continua funcionando. É essa a imagem por trás da expressão.

Os ingleses chamam suspensórios de “braces” e usam a expressão “belt and braces” com o mesmo sentido.

De acordo com este site, a expressão apareceu impressa pela primeira vez em 1935 com a frase “A pessimist wears both belt and suspenders”.

Essa expressão é mais utilizada na área de negócios, principalmente relacionada a empréstimos e a Investopedia dá uma boa definição. Afinal, quando se faz um empréstimo, é bom ter garantias, mais de uma, por via das dúvidas.

E como traduzimos para o português?

A melhor sugestão, dada pela amiga tradutora, é “seguro morreu de velho“.

Dependendo do contexto e do nível de formalidade do texto, outras opções menos coloridas seriam “por precaução” ou “por via das dúvidas“.

 

 

Budgie smugglers

Budgie smugglers é uma expressão que você não vai encontrar com muita frequência, a não ser que tenha algum contato com a cultura australiana. Mas achei a expressão engraçada e resolvi escrever sobre ela.

Aliás, os australianos têm um jeito todo peculiar de falar. Como se não bastasse o sotaque difícil de entender para quem não está acostumado, eles comem metade das palavras, ou colocam outras terminações, ou os dois, a começar por Aussie que é como eles se autodenominam.

Antes de mais nada, budgie é um diminutivo para budgerigar, uma espécie de periquito australiano. Pelas fotos, é igual ao nosso periquito. Smuggler é contrabandista em inglês, nenhum significado oculto aí. Portanto, budgie smugglers é traduzido literalmente como contrabandista de periquito.

Mas, na verdade,  budgie smugglers são sungas, calções de banho masculinos, daqueles justinhos.

Aí você deve estar pensando, o que uma coisa tem a ver com a outra?

É por causa da forma como os órgãos genitais masculinos ficam acomodados na sunga que pode lembrar o formato de um periquito escondido ali dentro. Visualizou? 😉

Segundo esse artigo, o termo surgiu no final da década 1990 em um documentário satírico produzido na época das Olímpiadas de Sidney (2000) e foi oficialmente adicionado ao Oxford English Dictionary em junho de 2016.

Aliás, recomendo a leitura se você quiser conhecer mais gírias de praia australianas.

E se você se interessa por denominações de trajes de banho em inglês (como tem variações!), ou sobre a história do traje de banho, a Wikipedia tem um longo artigo.

Depois as minhas amigas se espantam com a diversidade de assuntos que conheço. É porque não imaginam como é o trabalho de um tradutor.

Treading water

treading water

Escutei a frase “She is treading water” em um episódio de uma série. Como não parecia se encaixar muito bem no contexto, fiquei na dúvida sobre o que o personagem queria realmente dizer.

Um dos primeiros resultados do Google foi o Collins. Não costuma ser a minha primeira opção na busca por expressões idiomáticas, mas foi o bastante para esclarecer.

A primeira explicação é quase uma tradução literal, “andar na água”, ou seja, ficar flutuando na água na posição vertical mexendo os pés, como se estivesse literalmente andando dentro na água.

A segunda explicação, que copio aqui embaixo, era o que eu estava procurando.

If you say that someone is treading water, you mean that they are in an unsatisfactory situation where they are not progressing, but are just continuing doing the same things.

Uma das coisas que aprendi nas oficinas da Isa Mara Lando é que sempre devemos prestar atenção à metáfora. As expressões idiomáticas não surgem do nada, elas sempre tem imagem por trás e é nessa imagem que devemos nos concentrar quando traduzimos.

No caso de treading water, temos duas imagens. Imaginem uma pessoa em pé dentro d’água. Apesar de movimentar os pés como se estivesse andando, é muito difícil sair do lugar. Então porque ela mexe os pés dentro d’água? Para não afundar! Se você já entrou no mar ou na parte funda da piscina, onde não dá pé, pode entender perfeitamente a sensação. Se tentarmos ficar parados em pé dentro d’água, afundamos.

Nem sempre temos expressões idiomáticas em português que correspondam às expressões em inglês, mas nesse caso temos mais de uma para escolher. Se o contexto for “não sair do lugar, não progredir”, podemos usar:

marcar passo – segundo o Dicio, o sentido é exatamente esse, mas a origem é militar – “Manter o ritmo com os pés sem sair do lugar, batendo-os alternadamente no mesmo local…”

ficar patinando sem sair do lugar – não encontrei nenhuma referência, mas é uma expressão mais informal que também costuma ser usada para descrever uma situação onde a pessoa não consegue progredir.

ficar na mesma – essa é mais uma expressão com o mesmo sentido, ficar na mesma situação, não progredir.

Nenhuma delas tem a ver com água, mas com a metáfora por trás da expressão, estar empacado no mesmo lugar, sem conseguir progredir.

Outra expressão em português relacionada à segunda metáfora, não afundar, é “manter-se à tona“. Em inglês, existe outra expressão para isso, “stay afloat“, bastante usada no contexo de negócios, tanto em português quanto em inglês. Se os negócios não vão bem, o dono tenta de tudo para se manter à tona, não deixar a empresa afundar. Por isso, encontrar a expressão treading water nesse contexto é mais raro, mas pode se encaixar.

Agora, treading water também é muito usada no sentido literal, se o contexto for aquático. Nesse caso, dizemos “bater o pé dentro d’água”, que é diferente de “bater perna” na beira da piscina.

Obs.: Pesquisando imagens para este artigo encontrei várias de exercícios militares dos Estados Unidos, com soldados completamente vestidos e equipados, literalmente andando dentro d’água. Se já não é fácil andar na água só de biquini, imagina como deve ser difícil carregando armas e equipamentos.