Cloud your judgement

cloud your judgement

Cloud your judgement é uma expressão bastante comum em inglês. Às vezes, aparece também como cloud your thinking.

A definição no Merriam-Webster é bem clara.
: to cause someone to be unable to think clearly
The alcohol must have clouded my judgment.

Em português dizemos: afetar seu raciocínio ou atrapalhar seu raciocínio.
No caso do exemplo acima, poderia ser: A bebida deve ter embotado meu raciocínio.


Dependendo do contexto, judgement poderia ser traduzido como bom senso, opinião, ideias, juízo ou até mesmo julgamento, apesar de que acho que parece mais um decalque.

O Reverso Context tem alguns bons exemplos e outros não tão bons assim. É sempre bom tomar cuidado, pois ele não diferencia o português do Brasil do português de Portugal. E alguns exemplos são simplesmente errados, não importa a variante.

Em um contexto mais literário, o verbo cloud pode ser traduzido como nublar, obscurecer, toldar, encobrir. Sempre com o sentido de uma nuvem que impede a passagem da claridade. O Longman tem vários bons exemplos de cloud como verbo.

Mas resolvi escrever este post porque, trocando ideias com outro tradutor, ele contou que ouviu em uma palestra o termo “claudizar” para se referir ao ato de levar arquivos e aplicações para a nuvem. Papo vai, papo vem, a princípio concordamos que não se usa cloud como verbo em inglês porque estávamos considerando somente a NUVEM. Logo em seguida, lembrei da expressão cloud your judgement (que ele não conhecia) e fui pesquisar mais a fundo.

NUVEM, aquela que ganhou fama nos últimos anos, pois foi o termo escolhido para descrever esse espaço cibernético que ninguém sabe bem onde fica, mas é para onde mandamos nossos arquivos para que fiquem mais seguros do que somente nos nossos computadores. É onde residem muitas das aplicações que usamos porque há muitas vantagens em relação a desempenho, confiabilidade, segurança etc.

Mas nada disso importa. Ou talvez sim. Vamos ver.

O inglês é um idioma onde qualquer substantivo pode se transformar em verbo e isso é uma grande dor de cabeça para nós, tradutores, porque o português tem suas regras e não permite essa flexibilidade. Quase qualquer substantivo.

A questão aqui é a palavra nuvem. O sentido da nuvem cibernética é totalmente diferente de algo que obscurece a claridade e tem uma conotação meio negativa. Que eu me lembre, só existe uma expressão em inglês usando nuvem de forma positiva, cloud nine. Aproveitando o embalo, escrevi sobre ela também.

A nuvem cibernética é algo que está “lá em cima”, não se sabe bem onde, não tem uma forma muito definida, mas é indubitavelmente positiva, por todos os motivos que descrevi acima.

Por isso mesmo, não dá para usar cloud como verbo em inglês quando queremos dizer que estamos enviando ou subindo arquivos para a nuvem, ou rodando aplicações na nuvem.

Recentemente, traduzi o vídeo da abertura da conferência da Google sobre computação em nuvem e eles usam termos como digital transformation e application modernization para ser referir à passagem das aplicações dos data centers para a nuvem. A própria empresa dona de uma das maiores plataformas de nuvem do mundo não achou que fazia sentido dar um novo significado para o verbo cloud.

Mesmo contra todas as regras da nossa língua, alguns verbos importados passam a ser usados e não causam estranhamento, como deletar. Ainda que o Houaiss recomende a substituição por apagar, suprimir, remover, o deletar caiu na boca do povo, e mesmo não sendo usado formalmente, todo mundo fala.

Mas claudizar dói no ouvido, né? Tomara que esse termo não pegue.

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