Palavras de Alívio

Eu conheci a Marleen Laschet quando revisei a tradução da sua palestra no TEDx Trondheim para o português. Gostei tanto da palestra que fui atrás do seu blog onde li esse artigo abaixo. É sobre a organização Translators Without Borders (TWB).

Quase todo mundo já ouviu falar nos Médicos sem Fronteiras mas eu nunca tinha ouvido falar em Tradutores sem Fronteiras. Achei tão interessante que resolvi traduzir.

A gente, normalmente, não se dá conta mas o nosso idioma não é falado apenas no Brasil e em Portugal mas também em Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.



Palavras de Alívio – Uma revisão do aprendizado com a crise do Ebola

por Marleen Laschet.

De fevereiro de 2014 a fevereiro de 2015, a África Ocidental foi acometida pelo Ebola. Os três países mais afetados foram Serra Leoa, Guiné e Libéria.

A crise enfrentou sérios problemas de comunicação. Mais de 90 idiomas são falados na região e mais de 50 por cento da população adulta é analfabeta. Os materiais de informação fornecidos pelos órgãos de assistência são, na sua maioria, por escrito e, majoritariamente, em inglês, porém em Serra Leoa apenas 13 por cento das mulheres falam inglês.

Além disso, existem poucos tradutores profissionais para os idiomas da África Ocidental e a conexão à internet era limitada. Ao tentar controlar uma epidemia, a disponibilidade de material nos idiomas que as pessoas compreendem pode tranquilizar as comunidades, aumentar a confiança nos agentes humanitários e promover uma mudança de comportamento efetiva.

Informação no idioma errado pode gerar desconfiança, assim como sérios equívocos na forma de tratamento e sobre como a doença é contraída. Em Serra Leoa, 42 por cento das pessoas que responderam a uma pesquisa da UNICEF em agosto de 2014 – meses depois do início da epidemia – acreditavam que banhos com água salgada eram um meio de cura eficaz.

Para melhorar a comunicação com comunidades que não falam o inglês, a Translators without Borders (TWB) levou o seu programa Words of Relief (Palavras de Alívio) que estava sendo testado no Quênia, para a África Ocidental. Words of Relief é uma abordagem inovadora para lidar com barreiras de idioma em crises. “Spider Networks”, ou Equipes de Resposta Rápida, são equipes virtuais de tradutores para crises treinadas para atender rapidamente às necessidades de idioma. A Spider Network permite que a organização recrute intérpretes, treine-os como tradutores de comunidade e reaja rapidamente. Uma tradução ruim pode ser potencialmente mais prejudicial do que nenhuma tradução, portanto um processo de garantia de qualidade foi implementado. A TWB utilizou a sua vasta rede e mídias sociais para recrutar meia dúzia de tradutores para os países afetados pelo Ebola. Eles passaram por um treinamento online com foco na tradução para o Ebola. As traduções fornecidas pelos novos recrutas foram revisadas para garantir a qualidade. Isso também ajudou a lidar com os problemas associados aos múltiplos dialetos. A TWB trabalhou com associados para coletar, traduzir e ajudar a disseminar materiais relacionados ao Ebola – 106 itens foram traduzidos em 30 idiomas totalizando mais de 80 mil palavras.

A TWB se concentrou em traduzir mensagens já bem estabelecidas: posteres simples e informativos com sugestões para evitar a disseminação do Ebola, mensagens com foco nas atitudes que devem ser adotadas quando alguém está doente ou esteve em contato com pessoas doentes, recomendações sobre enterros, onde buscar informação, e o vídeo “Ebola: A Poem for the Living” (Ebola: Um Poema para os Vivos). O próximo passo era fazer com que o material traduzido fosse amplamente distribuído para os órgãos de assistência através das várias redes humanitárias.

Embora o projeto tenha sido um sucesso de várias maneiras, a TWB encontrou alguns obstáculos difíceis de superar. Mesmo durante esse tipo de crise, a organização teve que lutar pela tradução porque traduções não costumam ser uma prioridade para os governos e agências de assistência. Conseguir o material a ser traduzido se provou uma tarefa mais difícil do que o previsto. A pessoa de contato muitas vezes não tinha acesso ao material ou não tinha autoridade para decidir quais materiais deveriam ser traduzidos. Além disso, os socorristas frequentemente trabalham em ambientes muito intensos e difíceis onde a internet é um luxo, tornando a comunicação bastante precária.

Com base na experiência durante a crise do Ebola, a TWB recomenda algumas mudanças na resposta humanitária. A tradução precisa se tornar parte da estratégia de comunicação dos órgãos de assistência. A TWB produziu um vídeo para aumentar a conscientização da importância das traduções e explicar como a TWB pode ajudar as organizações humanitárias a alcançar os seus objetivos. Para a TWB, é crucial adotar novos métodos de trabalho, criar estruturas que possibilitem a comunicação com as comunidades no idioma local e rapidamente reformatar os documentos traduzidos.

Para melhorar a comunicação com as organizações de assistência a TWB está desenvolvendo um repositório de mensagens-chave em idiomas locais que podem ser rapidamente traduzidas durante uma crise, assim como uma API, a Translators without Borders’ Words of Relief Digital Exchange (WoRDE), para prover um espaço de trabalho de fácil utilização para que as agências de ajuda possam solicitar traduções diretas para as Equipes de Resposta Rápida (Rapid Response Teams). As equipes são mais efetivas quando incluem intérpretes das comunidades das áreas afetadas que podem atuar como representantes locais, participando de reuniões de coordenação junto às organizações de assistência.

Para atender às necessidades dos analfabetos, a TWB está incluindo áudio e vídeo no repositório de informação do Words of Relief. A TWB também está considerando o desenvolvimento de tecnologia de conversão texto-fala para incorporá-la às suas ferramentas de tradução. Isso vai ajudar aos socorristas a passar as mensagens escritas no formato de áudio.

No geral, o projeto Words of Relief da TWB gerou uma grande conscientização por traduções em ações humanitárias porém, ainda há muito trabalho a ser feito para promover o uso de idiomas locais em ações de resposta humanitárias.

Link para o artigo original na TCWorld.

2 Comentários

  1. Muito interessante!! Toda ajuda a essas populações tão necessitadas será sempre bem vinda!! Tiro o chapéu para esse fantástico projeto!!

  2. Também achei. É tanta coisa interessante que acontece pelo mundo. Estou descobrindo várias com as traduções do TED. 😉

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